Reflexos enganosos
- Luis Alcubierre
- há 21 horas
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A produção de conteúdo audiovisual cresceu de tal forma com o uso das redes sociais que muitas pessoas se deparam com algo comum: a estranheza ao ouvir a própria voz ou ver sua imagem em vídeos. Esse desconforto, longe de ser uma mera questão de vaidade, tem raízes profundas na psicologia, na neurociência e na forma como nos percebemos. Uma coisa é certa: a exposição pessoal é cada vez mais frequente e a tecnologia tem influenciado nossa autoimagem. Minha admiração com a desenvoltura de tanta gente me fez pensar que também haverá aqueles que não arriscam, por medo ou vergonha. O assunto me fascina desde meus tempos de rádio, mas foi só de alguns anos para cá, ao estudar teatro, que a ideia do artigo emergiu.
A voz que ouvimos não é a que os outros escutam
Quando falamos, ouvimos nossa voz de duas maneiras distintas: através das ondas sonoras que chegam aos nossos ouvidos pelo ar, conhecidas por condução aérea; e pelas vibrações internas que percorrem nossos ossos e tecidos, especialmente os da cabeça, as quais chamamos de condução óssea. Essa segunda via faz com que nossa voz soe mais grave, cheia e ressonante para nós mesmos do que para os outros. Isso acontece porque a condução óssea enfatiza as frequências mais baixas, criando uma percepção de profundidade que a condução aérea sozinha não proporciona. Quando ouvimos uma gravação, essa condução óssea desaparece repentinamente, e a voz que escutamos parece estranha, aguda, e até mesmo, para alguns, "artificial".
Segundo um estudo publicado pela revista científica dos Estados Unidos Plos One, em 2018, essa discrepância entre a autopercepção e a realidade auditiva é uma das principais razões para o desconforto. O estudo detalha como o cérebro processa as diferentes vias de audição e como a ausência da condução óssea em gravações pode levar a uma sensação de desorientação auditiva.
O psicólogo Jordan Gaines Lewis, em artigo para a Psychology Today, explica que essa reação é natural, uma vez que estamos acostumados a ouvir nossa voz de uma maneira específica desde a infância. A gravação, ao apresentar uma versão diferente, gera uma dissonância cognitiva, levando-nos a rejeitar o que ouvimos. Essa dissonância pode ser comparada à sensação de estranheza ao ver uma foto nossa em que não estamos acostumados com o ângulo ou a iluminação.
A imagem refletida não é a que vemos no espelho
Assim como ocorre com a voz, nossa percepção da própria imagem também é distorcida. Quando nos olhamos no espelho, vemos uma versão invertida de nós mesmos, o que se torna nossa referência visual primária. Ao longo da vida, nosso cérebro se adapta a essa imagem espelhada, e passamos a nos identificar com ela. Além disso, o espelho nos mostra uma imagem estática, muitas vezes em poses que consideramos mais favoráveis, enquanto as gravações capturam movimentos, expressões faciais e ângulos que nem sempre percebemos ou controlamos no dia a dia.
Um estudo já mais antigo, de 2013, realizado pela Universidade de Chicago, revelou que as pessoas tendem a se julgar de forma mais crítica em vídeos, porque estão mais atentas a detalhes que normalmente ignoram. A investigação utilizou a eye-tracking technology para rastrear o olhar dos participantes enquanto assistiam a vídeos de si mesmos, e constatou que eles focavam em imperfeições e assimetrias que passariam despercebidas em outras situações. Além disso, a iluminação e a qualidade da câmera podem acentuar características que não nos agradam, contribuindo para o desconforto.
Profissionais que trabalham com gravações, como atores, apresentadores e cantores, muitas vezes relatam que precisam de tempo para se acostumar com sua própria imagem e voz. A atriz Meryl Streep, em entrevista ao The Guardian, mencionou que, no início da carreira, evitava assistir a seus filmes porque se sentia desconfortável com sua performance e aparência. Esse processo de aceitação, segundo ela, é parte do desenvolvimento profissional e envolve aprender a separar a autocrítica da autossabotagem.
O impacto das redes sociais na autopercepção
Com a onipresença das redes sociais, a exposição pessoal se tornou inevitável. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube incentivam a criação de conteúdo audiovisual, levando as pessoas a se gravarem com frequência. No entanto, essa exposição constante pode amplificar a insatisfação com a própria imagem e voz, criando um ciclo vicioso de autocrítica e comparação. Não são poucas as observações que mostram que o uso excessivo de redes sociais está associado a níveis mais altos de ansiedade, depressão e baixa autoestima, especialmente entre jovens. Uma das fontes que confirmam a tese vem da Royal Society for Public Health, que apontou para o impacto negativo dos filtros e edições de imagem, que criam padrões de beleza inatingíveis e distorcem a percepção da realidade.
É inegável que as redes sociais criam uma cultura de comparação e perfeccionismo. As pessoas tendem a comparar suas gravações com as de influenciadores e celebridades, que muitas vezes utilizam filtros, edições e até mesmo cirurgias plásticas para alcançar um padrão irreal de beleza. Essa comparação pode levar a uma distorção da autopercepção e a um sentimento de inadequação, conhecido como "dismorfia”.
Além disso, a busca por validação nas redes sociais, através de curtidas, comentários e compartilhamentos, pode levar as pessoas a se tornarem excessivamente preocupadas com a própria imagem e a buscarem constantemente a aprovação dos outros. Essa busca por validação externa pode minar a autoestima e a autoconfiança, tornando as pessoas mais vulneráveis à autocrítica e à insatisfação com a própria aparência.
Como resolver toda essa insatisfação?
Especialistas sugerem que a aceitação da própria voz e imagem é um processo gradual que requer autocompaixão e autoconsciência. A psicóloga Susan David, autora de Emotional Agility, recomenda que as pessoas pratiquem a autocompaixão e reconheçam que o desconforto inicial é normal e universal. Ela sugere que as pessoas se tratem com a mesma gentileza e compreensão que tratariam um amigo que estivesse passando pela mesma situação. Além disso, expor-se gradualmente a gravações pode ajudar a reduzir a estranheza e a desenvolver uma percepção mais realista da própria imagem e voz.
Diretores e produtores também enfatizam a importância de se familiarizar com a própria imagem e voz. O cineasta Martin Scorsese, em entrevista à Vanity Fair, destacou que assistir a si mesmo em filmes é uma forma de aprender e evoluir como artista. Para ele, a autocrítica deve ser construtiva, não paralisante. Ele sugere que os artistas se concentrem em identificar áreas de melhoria e em desenvolver estratégias para aprimorar seu desempenho, em vez de se fixarem em imperfeições e defeitos.
Se você acha que essa autossabotagem com a voz e a imagem só acontece com você, saiba que se trata de um fenômeno universal, enraizado na forma como nos percebemos e processamos informações sensoriais. Entender as razões por trás dessa reação e adotar uma abordagem solidária em relação a si mesmo pode ajudar a transformar essa experiência em uma oportunidade de crescimento e autoconhecimento. Afinal, como diz o ditado, "a beleza está nos olhos de quem vê" e, talvez, também na aceitação de quem se vê. O escritor e poeta espanhol Ramón de Campoamor é autor de uma das frases que mais me ajudaram a entender as ciladas do caminho: "neste mundo traidor, nada é verdade nem mentira; tudo depende da cor do cristal com que se olha".
A chave está em lembrar que a perfeição é uma ilusão e que a autenticidade é o que realmente importa.

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