O Mundo Invertido: Quando a desinformação e a relativização redefinem heróis, bandidos e a própria realidade
- Luis Alcubierre
- 19 de fev.
- 3 min de leitura
Bem-vindos à era em que as fronteiras entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, e o herói e o bandido, parecem ter se dissolvido. Um mundo onde líderes globais podem acusar aliados de ditadores, enquanto abraçam inimigos antes isolados. Onde a diplomacia, construída ao longo de décadas, é desmontada em uma declaração. E onde a Justiça, em vez de ser um farol de equilíbrio, parece vacilar, soltando aqueles que deveria conter e prendendo aqueles que deveria proteger.
O cenário vai além da metáfora política e passa a ser o reflexo de uma crise maior: a ascensão da desinformação e da relativização moral, fenômenos que redefinem a realidade de acordo com narrativas convenientes, e não com fatos objetivos. Perigos de uma sociedade que perde a capacidade de distinguir entre a verdade e a mentira.
O alerta parece mais urgente do que nunca. Estamos acompanhando em tempo real líderes que, em vez de unir, dividem; em vez de construir pontes, erguem muros. Um presidente acusa um aliado de ser o culpado por uma guerra, enquanto outro líder, em resposta, acusa o primeiro de reabilitar um inimigo global. As acusações não são apenas trocas de farpas, mas sintomas de uma inversão de valores. Heróis transformados em vilões e vilões elevados a heróis.
Essa dinâmica não se limita à política internacional. Por aqui, criminosos reincidentes são soltos pela Justiça, enquanto cidadãos comuns são punidos por infrações menores. A polícia prende, mas o sistema judiciário solta, criando um ciclo de impunidade que mina a confiança nas instituições. A fluidez das relações e instituições gera uma sensação de insegurança e desorientação, e ela parece ter contaminado também a Magistratura, tornando-a maleável demais para servir como um pilar da sociedade.
No contexto político, líderes que prometem mudanças radicais e soluções mágicas muitas vezes acabam por agravar as crises que juraram resolver. Promessas de estabilidade econômica, justiça social e união nacional são substituídas por polarização, instabilidade e desconfiança. Esses líderes, em vez de serem responsabilizados por suas falhas, são frequentemente absolvidos por narrativas que os transformam em vítimas ou mártires. Não demora muito e passam a liderar pesquisas de intenção de voto.
No clássico 1984, Orwell descreveu um mundo onde a verdade é manipulada e o passado é constantemente reescrito. Hoje, não precisamos de um Grande Irmão para distorcer a realidade. Nós mesmos, com nossas câmaras de eco e algoritmos, fazemos esse trabalho. A relativização moral deixou de ser apenas uma ferramenta de poderosos. Passou a refletir a nossa própria incapacidade de lidar com a complexidade do mundo real.
Deu vontade de gritar por socorro? Precisamos resgatar a verdade como um valor fundamental, não como uma narrativa conveniente. Precisamos de instituições sólidas, capazes de distinguir entre o certo e o errado, e de líderes que priorizem o bem comum sobre interesses pessoais ou ideológicos; além, é claro, de documentos magnos que deixem tudo muito mais claro.
O filósofo alemão Jürgen Habermas defende a ideia de uma esfera pública onde o diálogo racional e a busca pela verdade possam florescer. E não há somente um campo para isso. É essencial que a mídia, a escola e as instituições promovam constantemente o pensamento crítico e a transparência. Esse somatório poderia ajudar a reconstruir as fronteiras que a desinformação dissolveu e, enfim, restaurar o equilíbrio na sociedade global.
A sensação é de estarmos mesmo em um mundo invertido, onde a verdade parece ser uma mercadoria negociável. Podemos e devemos lutar por uma sociedade mais equilibrada, onde a verdade prevaleça e os bons e os maus não se confundam. No poema "Os homens ocos", T.S. Eliot afirma: “Não será com um estrondo que o mundo acaba, mas com um gemido.” Cabe a nós decidir se vamos sussurrar diante da inversão de valores ou se vamos erguer a voz em defesa da verdade e da justiça. O futuro depende dessa escolha.

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